Os perigos do autodiagnóstico

Autodiagnóstico

Um levantamento feito pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), em 2018, constatou que quase 50% dos brasileiros fazem autodiagnóstico pela internet (PEBMED, 2018). A pesquisa constatou ainda que cerca de 64% dessas pessoas tem curso superior. 

Esses números são bem preocupantes, porque o autodiagnóstico oferece vários riscos. Por isso, quando postamos no blog ou em nossas redes sociais quais são os sintomas de uma doença/distúrbio, a intenção não é, de maneira alguma, facilitar que leitores/as possam se diagnosticar, mas incentivar que se procure auxílio profissional. 

Com relação ao perigo do autodiagnóstico, principalmente no que diz respeitos à saúde mental, é preciso ter em mente que os sintomas são difíceis de serem avaliados. Além disso, existe uma espécie de imagem romanceada a respeito de doenças e distúrbios psíquicos, sobretudo entre jovens, que precisa ser tratado com muita cautela. 

Diferença entre sinal e sintoma

Muitas pessoas não sabem, mas existe uma diferença entre sinal e sintoma. Os sinais se referem a algo que pode ser percebido visualmente, como, por exemplo, as manchas da catapora. O sintoma, por outro lado, depende do relato do/a paciente para que possa ser analisado. Por serem subjetivos, os sintomas são mais complexos e necessitam de uma observação atenta e cuidadosa. Dito de outro modo, não é possível fazer uma análise simplista de sintomas sem levar em conta o histórico do/a paciente, seus hábitos, contextos específicos, dentre outros fatores importantes. 

Não faça diagnósticos!

Para concluir, é sempre fundamental ressaltar que nenhum site, teste feito pela internet, blog ou mesmo amigos e conhecidos é capaz de diagnosticar uma doença. Diagnosticar a si mesmo ou outras pessoas pode acarretar problemas mais sérios. Muitas vezes, aquilo que acreditamos ser um claro indicativo de uma doença pode ter causas que nem mesmo imaginamos. Somente o/a profissional capacitado/a é capaz de relacionar sinais e sintomas, ler o perfil do/a paciente e indicar o melhor tratamento. Vale lembrar também que ninguém é melhor ou pior por ter um diagnóstico.

Referências

PEBMED. 40% dos pacientes fazem autodiagnóstico e automedicação pela Internet. 17/10/2018. Disponível em: https://pebmed.com.br/40-dos-pacientes-fazem-autodiagnostico-e-automedicacao-pela-internet/ (acesso em 24 fev. 2020). 

O que é gatilho? Como lidar com as memórias traumáticas?

Gatilho

A palavra gatilho tem aparecido muito na internet, mas nem todo mundo sabe o que ela significa ou quais são os fundamentos psicológicos para expressão. Por isso, hoje vamos falar um pouquinho mais sobre esse tema, na tentativa de esclarecer possíveis dúvidas e dar mais profundidade à discussão. 

É muito comum que a gente se depare com frases como “alerta de gatilho” ou “essa postagem está me dando gatilho”. Nesse sentido, a palavra é usada como uma tradução do termo inglês trigger, que se refere a qualquer coisa que possa conduzir a nossa mente/memória para uma lembrança traumática. 

Como exemplo, podemos pensar em alguém que sofre um acidente de carro. Anos depois, ao ouvir a música que estava tocando no momento da colisão, esta pessoa pode se lembrar dos detalhes do acidente, o que causa desconforto e sofrimento. Assim, a música funcionou como um gatilho para dar início a essas lembranças negativas. 

Um ponto importante sobre o gatilho ou trigger é que ele pode se manifestar de diferentes formas. Os sentidos, como visão, audição, tato e paladar, são os grandes responsáveis por desencadear as lembranças traumáticas. Contudo, cada pessoa reage de formas muito individuais a esses estímulos.

Alguns gatilhos são mais previsíveis e frequentes. Por isso, materiais escritos ou audiovisuais com conteúdo mais pesado (ex.: narrativas de abuso, imagens de violência e etc.) podem conter uma alerta de gatilho, a fim de prevenir alguém que passou por alguma situação traumática de sofrer com as lembranças negativas. 

Ao mesmo tempo, não é possível evitar totalmente as possibilidades de gatilho. Dessa forma, é fundamental ressaltar que uma pessoa que observa que certos gatilhos lhes causam sofrimento, ansiedade ou pânico devem procurar tratamento psicológico para aprender a lidar com esses estímulos. 

Referências: 

GOODTHERAPY. Trigger, 05/02/2018. Disponível em: https://www.goodtherapy.org/blog/psychpedia/trigger. Acesso em 14 fev. 2020. 

PSYCHCENTRAL. What is a trigger? 06/10/2018. Disponível em: https://psychcentral.com/lib/what-is-a-trigger/. Acesso em 14 fev. 2020.

Transtorno de Personalidade Borderline: entenda os sintomas!

Personalidade Limítrofe

Você já ouviu falar em Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)? Pois saiba que essa é uma doença que afeta cerca de 6% da população mundial. O TPB acomete principalmente as mulheres e jovens, mas não se limita a esses grupos. De acordo com estudiosos em saúde mental, quem sofre com o transtorno tem chances maiores de cometer suicídio. Por isso, é muito importante que o diagnóstico e tratamento adequado sejam feitos o mais cedo possível. 

Para quem quer se informar melhor sobre o TPB, sugerimos fortemente o episódio #07 do podcast Entrementes: https://drauziovarella.uol.com.br/podcasts/entrementes/entrementes-07-personalidade-b O convidado foi o psiquiatra Dr. Marcus Zanetti, do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês, que respondeu a uma série de questões sobre o transtorno. Segundo ele: 

“Pessoas com transtorno de personalidade acabam acreditando que o mundo funciona como elas pensam, e acabam projetando suas e expectativas e ideias no outro, o que nem sempre corresponde à realidade” (Dr. Marcus Zanetti). 

Dessa forma, o Transtorno de Personalidade Borderline, assim como outros transtornos de personalidade, se caracteriza sobretudo pela grande dificuldade nos relacionamentos interpessoais. Além disso, do prejuízo de cognição social, o sentimento de rejeição e a instabilidade afetiva são as principais características do TPB. 

A expressão borderline pode ser traduzida como “limítrofe”. Por isso, o diagnóstico do TPB vem da observação de comportamentos extremos e excessivos. É muito comum que o transtorno leve ao uso compulsivo de álcool, outras drogas e até mesmo a compulsão alimentar. Os comportamentos autodestrutivos e impulsivo também são sinais da personalidade borderline. 

Vale sempre lembrar que muitas vezes nos identificamos com alguns sintomas de doenças/transtornos, principalmente quando lemos sobre esses temas. Contudo, é importante que esses sinais sejam avaliados por um especialista. Pode parecer repetitivo, mas o ideal é procurar um/a psicólogo/a ou psiquiatra para que seja feito o diagnóstico.

Referências:

#07 PERSONALIDADE BORDERLINE. Entrevistador: Luiz Fujita Júnior. Entrevistado: Marcus Zanetti. Estado Podcast. Podcast. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/podcasts/entrementes/entrementes-07-personalidade-borderline/. Acesso em 08 fev. 2020. 

SANTOS, Maria Tereza. Transtorno de Personalidade Borderline: o que é e como controlar. Saúde Abril, 25 set. 2018. Disponível em: https://saude.abril.com.br/mente-saudavel/transtorno-de-personalidade-borderline-o-que-e-e-como-controlar/. Acesso em 08 fev. 2020.


Transtorno Bipolar: como identificar os sintomas do distúrbio

Bipolaridade

No ano passado, a série Modern Love deu o que falar com uma histórias de amor inspiradas em casos reais publicados em uma coluna semanal do jornal New York Times. Um dos episódios mais comentados foi o estrelada por Anne Hathaway, cujo título é “Me aceita como eu sou, quem quer que eu seja”. A atriz vive uma advogada que sofre com o Transtorno Bipolar e tem sérias dificuldades para estabelecer relações por causa de suas variações de humor. Na narrativa, há uma tentativa de não romantizar os sintomas do transtorno, revelando uma abordagem interessante para quem quer conhecer mais sobre a doença. 

De um modo geral, o Transtorno Afetivo Bipolar se caracteriza por oscilações entre episódios de depressão e euforia. Não existe, contudo, uma regra que defina o comportamento de quem sofre com o distúrbio. Existem tipos mais graves, em que a alternância do humor pode ser mais severa e trazer grandes dificuldades para o/a paciente; e também casos menos severos, em que a pessoa leva a vida sem maiores prejuízos. Por se tratar de uma doença complexa, o acompanhamento de um profissional de saúde é fundamental. 

Sintomas do Transtorno Bipolar

É possível elencar os sintomas do Transtorno Afetivo Bipolar conforme a fase. Nos episódios de depressão, observa-se: 

  • tristeza profunda
  • apatia
  • falta de interesse por atividades do cotidiano
  • dificuldade de interação social
  • insônia ou excesso de sono
  • aumento ou perda de apetite
  • diminuição na libido
  • frustração
  • cansaço
  • sentimento de culpa
  • esquecimento
  • ideais suicidas

Já nos episódios de euforia, os sinais são: 

  • maior autoestima e autoconfiança
  • redução do sono
  • agitação
  • falta de foco
  • impaciência
  • comportamento agressivo
  • irritabilidade
  • compulsão para falar
  • mania de grandeza
  • aumento da libido

Existem ainda os casos em que os episódios de euforia são mais leves e, por isso, chamados de hipomania. Os sintomas são semelhantes, mas não se manifestam de forma tão exacerbada. 

Assim como ocorre com outros transtornos mentais, é muito importante romper com estigmas a respeito da bipolaridade. Vale a pena se informar, buscar ajuda e acolher as dificuldades de quem sofre com o transtorno.

Referências:

BRUNA, Maria Helena Varella. Transtorno Bipolar. Portal Drauzio Varella. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/transtorno-bipolar-2/ (acesso em 28/01/2020). 

INOVA SOCIAL. Amores Modernos e Saúde Mental, 29/11/2019. Disponível em: http://inovasocial.com.br/inovasocial-indica/modern-love-saude-mental/ (acesso em 28/01/2020).

Descanso: será que você precisa de uma pausa?

Descanso

O ser humano, como qualquer outro animal, é um organismo que consome energia e que, por isso mesmo, se desgasta. Em contrapartida, a sociedade em que vivemos nos cobra produtividade em praticamente todas as esferas da vida. Assim, com o passar do tempo, a máquina vai se sobrecarregando, ou seja, excedendo os seus limites. 

No que diz respeito às máquinas, quase sempre temos mais clareza sobre o desgaste nos mecanismos: é preciso desligar o computador ou não deixar uma ferramenta esquentar demais. Quando se trata de nós mesmos/as, no entanto, esquecemos que a sobrecarga sem pausas pode afetar não apenas o funcionamento da máquina, mas também sua vida útil (vale a pena conferir nosso artigo sobre Burnout). 

O que queremos dizer com isso? Que o descanso é fundamental para a vida de qualquer pessoa. Estudos científicos em diferentes áreas mostram que o cérebro precisa de momentos de repouso para que possa funcionar normalmente. E não adianta viajar nas férias e ficar o tempo todo acompanhando o grupo de Whatsapp do trabalho. Descanso, nesse caso, significa realmente desligar a máquina, ao menos por algum tempo!

Para você aproveitar melhor o período de férias, separamos algumas informações interessantes sobre a importância do descanso. 

1. Desligar o botão de alerta

Em situações de estresse, nervosismo ou dificuldade, nosso cérebro liga uma espécie de sinal de alerta. A questão problemática é que esse estado de alarme pode se tornar frequente. Em certa medida, é como se nossa mente não soubesse mais como lidar com as situações de outra forma, o que pode ser bastante desgastante. Por isso, por mais difícil que seja, é preciso desligar esse alerta com momentos de pausa e descanso. 

2. É hora de se desconectar

Como dissemos anteriormente, o descanso exige que você tente ao máximo se desconectar daquilo que causa o estado de alerta. Algumas dicas são desligar o celular por algumas horas do dia, evitar notificações de e-mail e não criar novas fontes de estresse. Uma boa ideia é reservar momentos do dia para resolver possíveis pendências, sem deixar que elas tomem toda a nossa energia ou que gerem culpa. 

3. O tempo do descanso

Para os especialistas, o tempo de descanso para uma reposição efetiva das energias deve ser de pelo menos sete dias. No entanto, mais importante que o tempo é a qualidade desse momento de lazer. Fazer nada, nada mesmo, pode ser muito bom. Também vale a pena apostar em atividades que são relaxantes para você, conforme seus gostos e experiências pessoais. 

Referências: 

PERES, Paula. Por que o cérebro precisa de descanso. Nova Escola, 27/07/2018. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/12194/por-que-o-cerebro-precisa-de-descanso (acesso em 07/01/2020), 

SEMIS, Laís. 6 bons hábitos para iniciar nas férias (e incluir na rotina). Nova Escola, 27/07/2018. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/12193/6-bons-habitos-para-iniciar-nas-ferias-e-incluir-na-rotina (acesso em 07/01/2020). 

Família(s): o lugar das relações familiares em nossas vidas

Família

O final do ano talvez seja o momento em que a ideia de família se torna mais presente, pois, nesse período, tendemos a nos encontrar com as pessoas para confraternizar e comemorar. Aproveitando a época, vale a pena refletir um pouco sobre esse conceito complexo e, ao mesmo tempo, tão presente em nossas vidas. Afinal, o que você entende por família? Como para você é essa relação? Por que ela é tão importante em nossa sociedade? 

Num primeiro instante, podemos conceber a família como aquela imagem comumente desenhada pelas crianças: com uma pai, uma mãe e as crianças. Contudo, essa representação não corresponde necessariamente à realidade, nem à diversidade do conceito de família. 

De acordo com a psicanalista Junia Vilhena:

“A família pode ser pensada sob diferentes aspectos: como unidade doméstica, assegurando as condições materiais necessárias a sobrevivência, como instituição, referência e local de segurança, como formador, divulgador e contestador de um vasto conjunto de valores, imagens e representações, como um conjunto de laços de parentesco, como um grupo de afinidade, com variados graus de convivência e proximidade… e de tantas outras formas” (VILHENA, s/d, p. 2). . 

Há ainda outro detalhe importante sobre o entendimento de família. Diferentemente do que pode parecer, ela não é algo natural ou biológico, mas, antes sim, uma construção social que passou por diferentes transformações no decorrer da história e com configurações que se relacionam com fatores culturais, religiosos, políticos, econômicos e temporais. 

Do ponto de vista psicológico, a família ocupa um papel importante na formação do indivíduo, como um intermediário entre a criança e o mundo, além de contribuir processos de decodificação e compreensão da realidade. Por outro lado, as relações familiares também estão na base de neuroses e traumas. Assim, do mesmo modo como acontece em qualquer relação interpessoal, a família tem aspectos positivos e negativos na constituição do indivíduo, não havendo modelos perfeitos ou ligações necessárias. 

Quando se fala em crise da família, quase sempre a referência é um ideal baseado em estruturas patriarcais e no matrimônio burguês. Contudo, existem diversas formas de experienciar a relação familiar: famílias sem filhos, crianças criadas apenas pela mãe, matrimônios homoafetivos, laços de parentesco entre pessoas sem ligação de sangue, comunidades que criam os filhos de modo coletivo, dentre tantas outras possibilidades. Por isso, mais importante que o modelo são as relações baseada em afeto, cuidado, trocas e crescimento, independente de como elas se constituem. 

Fontes: 

VILHENA, Junia. Repensando a Família. Disponível em: https://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0229.pdf (acesso em 27/12/2019). 

CANOSO, Regiane. A família como instituição, necessidade e função. Estadão Ciência, 06/01/2011. Disponível em: https://ciencia.estadao.com.br/blogs/ciencia-diaria/coluna-de-psicologia-a-familia-como-instituicao-necessidade-material-e-funcao-biologica/ (acesso em 27/12/2019).  

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Sororidade: juntas somos mais fortes

Sororidade

A palavra sororidade pode não ser tão conhecida, mas quase todo mundo conhece o seu significado. Trata-se, resumidamente, da consciência da necessidade de união, solidariedade e trocas entre as mulheres. Dessa forma, o termo se refere ao estabelecimento de redes de apoio e fraternidade que contribuem para o fortalecimento das mulheres em uma sociedade desigual. 

Mulheres não são inimigas

Existe em nosso imaginário uma ideia de que mulheres são competitivas e tendem a inimizades. No entanto, essa concepção é muito mais uma construção cultural que um fato consolidado. Para muitas especialistas no tema, a rivalidade entre mulheres é usada como forma de controle e, por isso, é muito importante romper com essas imagens em nome de um pacto de solidariedade. 

Do ponto de vista da saúde mental, essas possibilidade de troca e aproximação entre mulheres também pode ser muito vantajosa. Primeiramente, experiências comuns podem facilitar a elaboração de questões difíceis, como casos de abuso e violência. Além disso, há pontos de aproximação, mas também muita diversidade nas vivências de mulheres. Quando ouvimos outras histórias podemos ampliar as possibilidades conhecimento sobre as pessoas e sobre nós mesmas. 

Múltiplas e diferentes

Quando falamos em sororidade, não podemos nos esquecer dessa diversidade que caracteriza as mulheres. Para além do gênero, há também a sexualidade, a raça, a idade, a sexualidade e muitos outros marcadores que tornam nossas experiências diferentes. Ser uma mulher cisgênero branca de classe média, por exemplo, pode ser muito diverso de ser uma mulher trans negra e periférica. Dessa forma, a solidariedade entre mulheres depende de ouvir, dinamizar as próprias vivências e aprender umas com as outras. 

Dica de série

Uma série que aborda de maneira interessante a questão da sororidade é Grace and Frankie, protagonizada pela atrizes Lily Tomin e Jane Fonda. Com mais de 70 anos, as personagens Grace e Frankie se veem obrigadas a repensar suas vidas. Um dos aspectos mais instigantes da série, além da idade das personagens e da diferença em suas personalidades, é que elas constroem, na adversidade, uma amizade que permite a reinvenção, o afeto e o cuidade. Para quem ainda não viu, vale a pena conferir!

Referências: 

PORTAL CATARINAS. Sororidade: o valor da aliança entre as mulheres. 26/02/2019. Disponível em: https://catarinas.info/sororidade-o-valor-da-alianca-entre-as-mulheres/ (acesso em 16/12/2019).

Síndrome do impostor: você já se sentiu como uma fraude?

Síndrome do impostor

Você já se sentiu como uma fraude? Ocupando espaços que talvez não lhe pertencessem? Esse sentimento, bastante comum, pode indicar um problema conhecido como síndrome do impostor. Apesar de não ser reconhecido pela Organização Mundial de Saúde, esse fenômeno psíquico vem sendo cada vez mais estudada por pesquisadores/as do mundo todo. 

Primeiramente é importante destacar que vivemos num momento muito pautado pela imagem. Com isso, muitas vezes nos vemos obrigados a confrontar como nos vemos com o modo como as outras pessoas nos veem. Pode haver, contudo, um grande descompasso entre essas duas visões. 

Sou uma fraude?

Um exemplo interessante é dado pelo escritor Neil Gaiman (2014), que conta no famoso discurso Faça boa arte sobre um episódio em que estava conversando com um senhor em uma festa, e o mesmo afirmou não entender por que ele estava ali, entre tantas pessoas importantes. Na sequência Gaiman revela que o seu interlocutor era Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na lua. Se até ele poderia se sentir inseguro com relação às suas capacidades, então talvez todos/as nós nos possamos sentir o mesmo em algum momento da vida. 

Dessa forma, a síndrome do impostor diz respeito, justamente, a este sentimento de fraude ou de incapacidade. Ela acomete pessoas que ocupam postos importantes em empresas e órgãos públicos, além de acadêmicos/as, que são as principais vítimas desse sentimento. Mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTs, pessoas com deficiência e outros grupos minoritários costumam ser mais atingidos pela síndrome.

Sintomas da síndrome de impostor 

Alguns dos principais sintomas da síndrome do impostor são:

Sensação de não merecimento da posição que ocupa. Não se sentir merecedor de cargos e posições que demandam algum tipo de reconhecimento e/ou seleção.

Desconfiança em relação à suas próprias capacidades, geralmente em comparação com outras pessoas próximas, que parecem mais aptas e capacitadas.

Grande medo de falhar, que pode levar à auto sabotagem como uma medida de proteção.

Necessidade frequente de aprovação ou reforço de elementos externos (colegas, amigas, familiares), devido à dificuldade de julgamento sobre si. 

Tendência a desqualificar os feitos pessoais, vendo os mais como sorte ou oportunismo do que como frutos do esforço pessoal. 

Vale lembrar também que a síndrome do impostor costuma estar diretamente relacionada com outros problemas, como a ansiedade e a depressão. Ao observar os sinais listados acima, a dica é buscar ajuda profissional para refletir sobre essas visões negativas e romper com os comportamentos mais prejudiciais. 

Referências:

BUENO, Alexandre. ‘Será que sou uma fraude?’ Conheça a síndrome do impostor. Faculdade de Medicina da UFMG, 28 de agosto de 2019. Disponível em: https://site.medicina.ufmg.br/inicial/sera-que-sou-uma-fraude-conheca-a-sindrome-do-impostor/ (acesso em 09/12/2019).

GAIMAN, Neil. Erros fantásticos: o discurso “Faça boa arte” de neil Gaiman. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014

PENA, Marcel. Se sentindo um impostor? Blog “O que a ciência tem”, 11 de agosto de 2018. Disponível em: http://proec.ufabc.edu.br/gec/o-que-que-a-ciencia-tem/se-sentindo-um-impostor/ (acesso em 09/12/2019). 

Vida em comum: a importância da coletividade para os seres humanos

Vida em Comum

Será que nós somos seres egoístas por natureza? Ou precisamos das outras pessoas para sermos completos/as? Essa é uma reflexão bem interessante para o nosso autoconhecimento como indivíduos e como sociedade. Um dos autores que a propõem é o antropólogo Tzvetan Todorov (2014), que em seu livro A vida em comum: ensaio de Antropologia geral defende a seguinte tese: “A socialidade não é um acidente nem uma contingência: é a própria definição da condição humana” (p. 31).

De acordo com Todorov (2014), existe um pensamento bem enraizado de que os seres humanos são solitários e individualistas por natureza, mas se inserem em organizações sociais por interesses diversos. O conhecido pai da Psicologia, Sigmund Freud, é um dos seguidores dessa tradição do humano como naturalmente associal. A teoria psicanalítica ressalta o egoísmo humano, sendo a sociedade um antídoto para o seu lado mais selvagem. Assim, o social seria algo artificial, enquanto a solidão seria natural a todos. Os seres humanos estariam em um eterno confronto uns com os outros, o que colocaria a sociedade civilizada em constante perigo. Essa teoria pode ser observada em coisas simples do dia a dia, como o egoísmo comum nas crianças, por exemplo. Parece que é necessário algum tempo até que aprendamos a viver em sociedade, compartilhar e lidar com outras pessoas. 

Uma outra visão

Outro estudioso da Psicologia, menos conhecido que Freud, segue por uma outra perspectiva. Alfred Adler estabelece uma análise mais social que a da psicanálise clássica. Ele traz mais um conceito importante para o entendimento das representações humanas: os atos de cooperação. Esses atos não seriam originados pela rivalidade entre as pessoas. O autor analisa a primeira mamada do bebê como um desses atos de cooperação, indo na direção oposta da de Freud. Para Adler, esse ato é benéfico tanto para a mãe quanto para o bebê, não havendo embate entre eles. Ele afirma também que não houve uma vida individual preexistente à coletividade. A sociabilidade humana está presente desde sempre em nossa história. Assim, nós, seres humanos seríamos seres sociais por natureza e não individuais. 

Um pensamento ou teoria não está mais correto que o outro. Ambos podem ter erros e acertos. No entanto, quando seguimos por essa segundo perspectiva, defendida por Adler, podemos ressaltar a importância das relações sociais para nossa existência. A nossa vida depende o tempo todo dessas relações, seja para questões de sobrevivência, seja para as de bem estar e satisfação pessoal. Por isso, é fundamental buscar se relacionar de maneira saudável, cooperativa e recíproca. O egoísmo e o individualismo também fazem parte da vida e podem ter um papel relevante, porém é importante lembrar que há uma existência em comum, onde todos/as têm a oportunidade de aprender, crescer e viver melhor. 

Referências:

TODOROV, Tzevetan. A vida em comum: ensaio de antropologia geral. São Paulo: Editora Unesp, 2014.

Lembrar e esquecer: por que a memória é tão importante?

Lembranças

O filme Brilho eterno de uma mente sem lembrança, lançado em 2004, nos convida a refletir sobre memória e esquecimento. Na história, uma clínica oferece um serviço inusitado: apagar as memórias dolorosas de quem sofreu por amor. E você, apagaria da sua mente alguma lembrança ou sentimento do passado? 

Em primeiro lugar, é preciso dizer que lembrar e esquecer são atividades importantes do nosso cérebro e ambas são fundamentais para a existência humana. Não podemos nos lembrar de tudo: cada pessoa, sentimento, situação, cheiro, informação e etc. Ao mesmo tempo, as lembranças têm papel importante não apenas no cotidiano, mas nas experiências humanas de um modo geral. 

O que é a memória

Com certeza, a memória humana funciona como um banco de dados; ela é capaz de armazenar, organizar, definir e até mesmo apagar determinadas informações. Assim, além de guardar os dados, a memória atribui pesos, reserva espaços específicos, abandona informações que já não são mais importantes. Como metáfora podemos pensar num arquivo de documentos históricos. Ele não é um simples depósito de papéis antigos, mas sim um espaço para selecionar, separar, preservar, ordenar e decidir o que deve ou não ser guardado. 

Cada vez mais esquecidos?

Em nosso dia-a-dia, muita gente reclama de falta de memória. Esses episódios normalmente estão relacionados a esquecimentos cotidianos, como o nome de um colega de trabalho, a data de uma consulta ou onde guardamos as chaves de casa. Com o passar dos anos, as pessoas tendem a achar que a capacidade de lembrar vai se deteriorando. Porém, estudos mostram que essa impressão não é bem verdadeira, exceto quando há alguma doença relacionada com esses esquecimentos. É necessário ter em mente que uma pessoa de 60 anos detém um volume muito maior de informações que uma de 15. Assim, fica muito mais difícil recordar o nome de alguém, por exemplo, quando milhares já passaram pela sua vida. 

Lembranças e sentimentos

É importante salientar também que as lembranças e as emoções andam lado a lado. Por isso, momentos de grande felicidade ou de muita tristeza costumam ser lembrados de maneira clara e detalhada. A dor causada pela memória de determinadas situações faz com que queiramos esquecer, mas o sentimento ruim quase sempre tem algum aprendizado a trazer. 

Voltando ao filme Brilho eterno de uma mente sem lembrança, o término de um relacionamento pode causar grande sofrimento, nos fazendo crer que era melhor esquecer completamente tudo o que vivemos. No entanto, é importante lembrar e elaborar os acontecimentos, ou seja, aprender com as experiências. O equilíbrio entre a memória e o esquecimento nos permite avançar, sobreviver e viver de forma mais satisfatória. 

Referências: 

SILVA, Paulo José Carvalho da. Lembrar para esquecer: a memória da dor no luto e na consolação. Rev. latinoam. psicopatol. fundam.,  São Paulo , v. 14, n. 4, p. 711-720, Dec. 2011 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-47142011000400010&lng=en&nrm=iso (acesso em 24/11/ 2019). 

AGÊNCIA FAPESP. Lembrar de esquecer, 29/06/2006. Disponível em: http://agencia.fapesp.br/lembrar-de-esquecer/5699/ (acesso em 24/11/2019). 

BRUNA, Maria Helena Varella. Memória e esquecimento. Entrevista com Wilson Jacob Filho. Portal Drauzio Varella, 06/05/2019. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/entrevistas-2/memoria-e-esquecimento-entrevista/ (acesso em 24/11/2019).